Alunos de universidades públicas acham que nada devem a quem paga impostos

Artigo do professor Roberto Lobo para a Folha de S. Paulo discute a postura de professores e estudantes sobre universidades públicas

Vivemos em um mundo em que ignoramos, muito frequentemente, o que nos sustenta e faz sobreviver. Só nos lembramos de várias coisas quando elas nos faltam ou não nos oferecem o apoio como achamos que deveriam. É o caso do ar que respiramos, do qual só nos apercebemos quando falta ou está muito poluído.

Estamos tão acostumados a ter vários tipos de apoio permanente que quem proporciona esse apoio é ignorado. Acabamos acreditando que todo esse suporte nos é dado por nossas qualidades e que estamos quase fazendo um favor ao aceitar a presença deles em nossa vida.

Assim também acontece com pais e filhos. O amor permanente e desinteressado dos pais quase sempre é entendido como mera obrigação e como consequência natural das qualidades dos filhos (ou assim esses acreditam), o que justifica, na visão dos filhos, intolerâncias e ingratidões tão comuns por parte dos mais jovens.

Já os amigos, entretanto, precisam ser sempre conquistados. Por isso são tratados com muito mais tolerância e cuidado. Só alguns, e muito mais tarde na vida e já no papel de pais, é que vão entender que aquilo que fizeram aos seus pais se assemelha ao que recebem de seus filhos.

Fenômeno semelhante ocorre nas universidades públicas brasileiras. Professores recebem um salário especial para ficarem em tempo integral na instituição, tendo à disposição secretárias, bibliotecas, recursos para viagens etc. mas passam a vida irritados, reclamando constantemente da falta de apoio e até das pouquíssimas exigências que as universidades tentam (muitas vezes sem sucesso) periodicamente implantar junto ao corpo docente.

No entanto, docentes amam as agências de fomento e as empresas que lhes pagam consultorias que, essas sim, cobram resultados mais concretos, mesmo que sejam decorrência de sua condição de professor daquela instituição e, por vezes, ocupando o tempo que está sendo pago por ela para suas atividades acadêmicas.

Mais uma vez, o apoio não desinteressado e temporário é mais valorizado que o institucional, entendido como o ar que se respira, para o qual não há necessidade de agradecimentos. É o mesmo caso de pais e filhos, em que o esporádico, secundário e exigente precisa ser conquistado. O que é marginal acaba preponderando sobre o substancial e o permanente.

O terceiro exemplo vem dos projetos nacionais de inovação. Nos Estados Unidos o governo tem tido um papel fundamental na organização e financiamento das grandes revoluções tecnológicas desde o final do século 19.

As land grant universities contribuíram desde a revolução agrícola no país ao desenvolvimento da informática (na segunda metade do século XX), com participação fundamental da agência Darpa (Department of Advanced Research Projects Agency), que juntou a pesquisa básica, a aplicada e os projetos de desenvolvimento e até a comercialização dos produtos inovadores, explorados por empresas como a Apple.

O mesmo ocorreu com a biotecnologia, apoiada pelo NIH (National Institute of Health), e atualmente acontece com a nanotecnologia, com a coordenação e financiamento do NNI (National Nanotechnology Iniciative).

Nada disso seria possível, nas dimensões atingidas, se as empresas, os cientistas, os engenheiros, os médicos e o setor financeiro tivessem sido deixados para evoluir segundo seus próprios interesses e visões. Foi o papel organizador do governo, capaz de assumir grandes investimentos de risco no longo prazo, que viabilizou esses avanços.

No entanto, também nos EUA, o Estado é acusado de privilegiar incompetentes, impor uma burocracia paralisante e não ter espírito empreendedor. Como dizia Thomas Jefferson, “o governo que governa menos, governa melhor”. Mas sem o governo americano, o país não teria a posição privilegiada que teve nas revoluções tecnológicas mencionadas.

Aqui se verifica a mesma situação dos exemplos anteriores: é o investimento marginal (pequeno capital de risco privado que não investe no longo prazo) e a autonomia dos setores que são mais valorizados, e os gênios inovadores parecem criar tudo a despeito da opressão estatal.

Em atitude semelhante, o repúdio de estudantes ao apelo para que os alunos das universidades públicas – gratuitas e que ainda financiam outras necessidades estudantis – façam atividades de interesse público enquanto estudam ou após a formatura, segue o mesmo viés de comportamento.

Os alunos julgam que é uma obrigação do povo carente pagar mais impostos para sustentar esses brilhantes alunos nas universidades públicas e deveriam todos ficar bem felizes com isso. Eles nada devem a ninguém, a nenhum pobre pagador de impostos, pois o estado provedor apenas cumpre uma obrigação!

No entanto, esses mesmos estudantes são capazes de correr os riscos e gastar seu tempo para se manifestar sobre assuntos totalmente distantes de sua realidade, gastar metade de seu tempo disponível nos celulares e não perder uma noite na balada. Novamente prepondera a valorização do marginal e a ingratidão ao essencial. Nesse caso também imperam o individualismo e o egoísmo!

Pais, universidades, estados e apoios governamentais de quase todos os tipos são como o ar que se respira: só se lembra dele para reclamar da poluição!

Fonte: Folha de S. Paulo – 09.02.2015