De volta ao topo

Engenharias estão em alta e são cada vez mais procuradas por quem busca um mercado diversificado, com muitas oportunidades de emprego e salários pra lá de atraentes

A retomada do crescimento econômico nos últimos 15 anos fez com que o mercado de trabalho em engenharia ganhasse novo fôlego. A construção civil e a indústria passaram a demandar mais profissionais, bem como empresas públicas e privadas de áreas como energia, petróleo, meio ambiente, tecnologia da informação, logística e gestão de projetos. Os cursos voltaram a ser concorridos e, os salários, valorizados. 

Levantamento do projeto EngenhariaData, do Observatório da Inovação (USP), mostra um aumento de até 571% no número de inscritos em vestibulares de engenharia, entre 2000 e 2012. De acordo com os pesquisadores, além dos avanços no mercado de trabalho, esse número reflete a ampliação do acesso ao ensino superior via Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e Sistema de Seleção Unificada (Sisu).

Por outro lado, o alto índice de evasão dos cursos e a qualidade da formação preocupam professores e especialistas. O Brasil ainda registra um baixo volume de produção científica em engenharia, o que compromete projetos de inovação. Estudantes e profissionais precisam de disposição para manter-se atualizados sobre as demandas da sociedade e as novas tecnologias. Caso contrário, podem estar fora do mercado em muito pouco tempo.

“O aluno de engenharia tem que ser capacitado para trabalhar em um mundo que não sabemos qual será, em uma atividade que ainda não existe, com tecnologias que nem foram inventadas”, alerta José Marques Póvoa, diretor de graduação do Instituto Superior de Inovação e Tecnologia (Isitec) de São Paulo. “Existem muitas habilitações, mas o engenheiro deve lembrar que — antes de tudo — ele é engenheiro. Muitas das habilitações de hoje poderão acabar ou se desatualizar em pouco tempo, mas os conhecimentos básicos da engenharia não mudam muito.”

De acordo com Póvoa, uma das principais lacunas na formação em engenharia é a área administrativa. Poucos cursos focam os aspectos mais voltados à gestão, tanto empresarial quanto de pessoas. Na contramão da formação, o mercado de trabalho espera profissionais que saibam trabalhar em time e sejam empreendedores. Com isso, algumas vagas no setor industrial, por exemplo, acabam sendo ocupadas por técnicos ou profissionais de outros ramos. 

O diretor de Educação e Tecnologia da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Rafael Lucchesi, aponta que o problema também passa pela falta de experiência dos recém-formados. “A indústria que investe em inovação requer profissionais prontos, com visão de mercado, habilidades de gestão, trabalho em equipe, aplicação de leis e normas técnicas, além de domínio de idiomas estrangeiros, principalmente o inglês”, ressalta Lucchesi, para quem seria importante incluir no currículo disciplinas mais conectadas com as demandas da indústria.

A CNI faz parte de um grupo criado em 2013 para repensar a formação dos engenheiros. Intitulado Fórum de Engenharia, o grupo também reúne o Ministério da Educação, Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA). Um dos desafios das instituições é pensar em formas de frear a evasão dos estudantes. Mais da metade dos que entram nos cursos de engenharia não concluem a formação. 

As causas da evasão foram identificadas pelo Instituto Lobo para o Desenvolvimento da Educação, da Ciência e da Tecnologia. A principal delas é a deficiência na formação básica em matemática e ciências. A falta de experiências práticas durante o curso também desmotiva os estudantes. As empresas e as universidades estão percebendo a necessidade de estreitar o relacionamento, criar estágios e programas que propiciem experiência de mercado antes do término do curso.

INICIATIVA

A motivação e a proatividade dos engenheiros fazem diferença desde o curso superior. Os estágios na área são escassos, mas para quem se empenha e busca atualização normalmente consegue se colocar. É o caso do estudante de engenharia civil Gabriel Leite Barbosa Machado, de 19 anos. Matriculado no quarto semestre do curso no Centro Universitário do DF (UDF), ele faz estágio em uma grande construtora da cidade. 

“Cuido da parte de levantamento de volume de concreto, assim como dos seus testes de resistência. Trabalho com a qualidade da obra, colocando em prática as políticas do ISO 9001” conta Gabriel, que escolheu engenharia pela afinidade com as matérias exatas e o interesse por um trabalho dinâmico. “Procuro me manter atualizado sobre as novas tecnologias da construção civil e sobre a gestão de projetos. Sempre estou lendo artigos e revistas especializadas na área.”

Segundo o estudante, existe uma grande demanda no mercado de engenharia por profissionais com conhecimento de ferramentas de informática. Cálculos complexos podem ser resolvidos com segurança em apenas um clique para quem está habituado aos programas de automação. “As empresas querem contar com quem sabe projetar grandes obras, mas também com profissionais capazes de fazer compras on-line com fornecedores de outros países”, observa. Fundamental, também, é ter domínio de línguas estrangeiras, técnicas de planejamento e execução de orçamentos.

Conciliar boa parte desses pré-requisitos garantiu uma carreira bem-sucedida ao engenheiro eletricista Rodrigo de Melo Santana, 39 anos. Formado pela Universidade de Brasília (UnB), ele atua como gerente de suprimentos na empresa de cimentos Ciplan, onde começou a trabalhar como trainee e fez parte da equipe de engenheiros antes de passar para a área de gestão. 

“Tenho como principais desafios saber negociar, entender de finanças, de contabilidade, de logística, de comércio exterior, pois a grande maioria de nossos equipamentos e nosso combustível para os fornos são importados”, conta Rodrigo, que desde a infância tem curiosidade por assuntos das áreas de tecnologia, eletricidade e computação.

“Acredito que os engenheiros desenvolvem algumas habilidades que ajudam em outras áreas: facilidade e rapidez em trabalhar com números, raciocínio para considerar hipóteses na tomada de decisões, facilidade de aprender coisas novas. Eu aproveito meus conhecimentos como engenheiro para conferir cálculos realizados pelos fornecedores ou decidir pela compra de máquinas.”

Rodrigo acredita que os estudos nas áreas de administração, probabilidade, estatística, direito, contabilidade e finanças podem agregar muito no currículo. É importante também não se ater ao básico e superar as expectativas de quem solicitar determinada tarefa. Aos mais jovens, ele aconselha mente aberta, ética, responsabilidade e dedicação. 

Fonte: Correio Braziliense – Juliana Mendes