Dores reais, falso remédio

Por: Clóvis Rossi

Antes de mais nada, uma constatação obscurecida pela vitória de Donald Trump no Colégio Eleitoral: suas propostas esdrúxulas e xenófobas foram rejeitadas pela maioria do eleitorado norte-americano, o que, no mínimo, desmente a suposição de que há uma avassaladora onda ultraconservadora em marcha.

Hillary Clinton ganhou, na eleição popular, por mais de 2 milhões de votos, segundo os cálculos do jornal “The New York Times”.

Não estou deslegitimando o mandato conferido a Trump. O jogo nos Estados Unidos se dá no Colégio Eleitoral, e Trump soube jogá-lo. Ganhou. Ponto.

O que quero dizer é que há um poderoso contraponto à sua agenda, que, aliás, está se manifestando nas ruas. Trump perdeu em todas as grandes cidades em que se concentra o ativismo político, o que significa que a resistência pode fazer refluir o seu ímpeto, se é que ele vai mantê-lo ou usou os disparates apenas como tática para vencer.

Feita essa ressalva indispensável, seria estúpido negar que uma impressionante massa de norte-americanos escolheu uma agenda indecente.

Massa que incluiu, por incrível que pareça, até os que concordam em que ele não está qualificado para ser presidente: dos 60% que têm essa opinião, 18% votaram nele assim mesmo, dizem pesquisas de boca de urna.

Fica a nítida sensação de que havia no ambiente uma ira tão profunda que o importante era destronar o establishment, de que Hillary Clinton era a perfeita representação.

Analisa, por exemplo, Philip Stephens no “Financial Times”:

“O ‘crash’ financeiro de 2008, a estagnação da renda, a austeridade e o desencanto com o livre comércio enterraram o consenso econômico liberal.”

Aprendi, em tantos anos de estrada, a evitar frases tão definitivas. Pode ser que o consenso econômico liberal tenha sido apenas remetido ao “freezer”, em vez de ter sido enterrado. Veremos. Prefiro o refrescante bom senso de João Manoel Pinho de Mello, em sua coluna desta sexta (11) na Folha: “A vitória de Trump e o “brexit” nos lembram que um dos desafios mais importantes da democracia liberal é conseguir compensar os perdedores. Eles falaram alto neste ano”.

Reforça David Leonhardt, da página de opinião do “The New York Times”, ao defender um plano dos democratas: “Esse plano obviamente deveria incluir ideias políticas para enfrentar a estagnação que aflige muitas comunidades da classe trabalhadora.”

Plano tanto mais necessário quando se sabe que o programa de Trump parece tudo menos um bálsamo para essa gente.

Dinamitar o Obamacare, promessa de campanha, significa deixar milhões de norte-americanos a descoberto, principalmente aqueles mais pobres.

O programa impositivo, por sua vez, escreve o “The New York Times”, representará uma doação de, em média, US$ 1,1 milhão para o 0,1% mais rico.

“A consequente falta de fundos governamentais roubará recursos para escolas e promissoras pesquisas médicas”, acrescenta.

Posto de outra forma: o eleitor pode saber onde dói, mas parece ter escolhido um curandeiro para tratar suas dores.

 

Fonte: Folha de S. Paulo

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