Empresas ‘caçam’ estudantes de engenharia civil

 

Quando criança, Thamyris Montanha, 18 anos, ficava fascinada diante da Ponte Rio-Niterói: “Como pode ser tão alta e cruzar o mar desse jeito?”. A curiosidade e a facilidade com a matemática, associadas a um mercado de trabalho extremamente atraente e voraz na busca por novos talentos, fizeram com que o curso de Engenharia Civil fosse, para ela, uma escolha natural.

Copa do Mundo, Olimpíadas, PAC, pré-sal e a estabilidade econômica do país movimentam o mercado da construção civil. Segundo o Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea), os investimentos previstos em infraestrutura e nos eventos esportivos demandam cerca de 200 mil engenheiros nos próximos quatro anos. Mas a média anual de registros aponta déficit de 50 mil profissionais em 2016.

O resultado é uma concorrência acirrada pelos melhores engenheiros. Para se aproximar dos universitários e conquistar futuros profissionais, empresas participam de feiras, fazem palestras e oferecem visitas técnicas.

Posições sênior

A construtora Odebrecht iniciou em 2012 o programa Estágio nas Férias, no qual estudantes conhecem as áreas de uma obra em 30 dias. A incorporadora MDL Realty, por exemplo, irá patrocinar a Semana Fluxo de Engenharia, que acontece em abril na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Já a Petrobras investe em bolsas de estudo para estudantes e pesquisadores.

“As empresas disputam os melhores alunos. Temos engenheiros recém-formados atuando em posições sênior”, afirma Vanderli de Oliveira, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora e integrante de comissões sobre o ensino de Engenharia no Ministério da Educação (MEC) e no Confea.

Aos 25 anos, Carlos Cerveira é um dos engenheiros civis do Parque Olímpico, em Jacarepaguá, e coordena 160 operários. Formado em 2009 pela Universidade Federal do Rio Grande, já trabalhou em uma Barragem, no Rio Grande do Sul, e no Terminal Portuário de Santos, em São Paulo.

“Minhas três transferências aconteceram em menos de uma semana. O engenheiro tem que estar preparado para viajar para onde a obra estiver. Sua vida tem que caber em um carro”, avisa.

O mercado aquecido e os altos salários — a média inicial nacional ultrapassa R$ 6 mil, segundo o site de empregos Catho — promoveram uma “corrida” aos cursos de Engenharia Civil. Entre 2010 e 2013, a relação candidato por vaga dobrou nos processos seletivos da Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) e da Fuvest, que é o maior do país, com exceção do Enem. Em São Paulo, o índice saltou de 26,78, em 2010, para 53,18, em 2013, o segundo curso mais concorrido, atrás de Medicina.

A graduação cresce em ritmo acelerado, mas ainda insuficiente para dar conta da demanda. Os principais gargalos são alta evasão e a demora na conclusão do curso.

“A evasão está em torno de 42%, na média geral de todas as especialidades. A maioria desiste no primeiro semestre, pois se assusta com a matemática e não sabe estudar por conta própria”, destaca Vanderli.

As empresas estão exigentes e investem em programas de estágio e trainees ou procuram profissionais especializados. Estudo da Federação da Indústria do Rio de Janeiro (Firjan), feito em 2012 com as 400 maiores empresas do país, aponta que 57% das contratantes vão exigir engenheiros civis com pós-graduação ou MBA.

Consultora de carreiras, Denise Retamal afirma que as empresas buscam profissionais com carreira, não com diploma. As áreas em alta são ligadas a planejamento, execução e gestão de obras de infraestrutura.

Fonte: Globo Online, 1/04/2013