Ensaio sobre a austeridade

Por: Clóvis Rossi

O total descontrole das contas públicas no período Dilma Rousseff tornou consensual a tese de que era indispensável editar um pacote de medidas pelo menos parecido com o anunciado pelo presidente interino Michel Temer.

A própria Dilma, aliás, havia tentando, sem sucesso, adotar a meta de aumento do gasto público, o que implica cortes pesados. Joaquim Levy, o primeiro ministro da Fazenda do segundo período Dilma, não era chamado de “Mãos de Tesoura”, por sua obsessão com os cortes?

Até aí, não há margem para grandes discussões. Mas falta o passo seguinte, a meu ver tão importante quanto o ajuste: medidas que permitam a retomada do crescimento, este sim indispensável para começar a aliviar a calamitosa situação do país.

A teoria dos ortodoxos, absolutos no controle do novo governo, pode ser resumida, de maneira simplificada, a um teorema mais teológico que econômico: o equilíbrio das contas públicas devolverá a confiança aos agentes econômicos, o que, por sua vez, levará à retomada dos investimentos. Daí ao retorno do crescimento seria um passo.

É possível que as coisas se passem de acordo com esse teorema, mas conviria prestar atenção a exemplos externos que demonstram que a austeridade, se radical, deixa sequelas duradouras.

Comecemos pela Espanha, que enfrentou um longo ciclo de recessão, em parte agravada pelas medidas de austeridade impostas pela União Europeia (que, aliás, está exigindo ainda mais cortes).

O resultado está na capa de “El País” do início desta semana, nestes termos: “Sequelas da cri­se continuam pre­sen­tes ape­sar da retomada da economia. Os ingressos médios dos la­res es­panhóis se reduziram 0,2% em 2015, até € 26.092 (R$ 104.810) anuais por família, segundo a pesquisa sobre condições de vida difundida pelo Instituto Nacional de Estatística”.

Uma observação antes de prosseguir: a renda média da Espanha é invejável, mesmo depois da crise, se comparada à do Brasil antes como depois da crise.

Sigo: “Um de cada três espanhóis (28,6%) se encontra em risco de pobreza ou de exclusão social, com poucos recursos para pagar necessidades básicas, segundo esses dados”.

Se é assim na Espanha, o que dizer do Brasil em que, antes mesmo do mergulho na crise, 36% se encontram não em risco de, mas já em situação de pobreza, segundo os dados do Ministério de Desenvolvimento Social?

Pulemos para a Grécia: depois de sucessivos pacotes de cortes, o país está entrando no sétimo ano de recessão (perdeu um quarto de sua economia nesse período), sem fim à vista.

Tanto é assim que até o FMI insistiu com a União Europeia (e foi bem-sucedido) em que qualquer pacote para a Grécia precisa necessariamente incluir algum alívio para a dívida.

Se as contas desta Folha estiverem corretas, serão necessários oito anos para que o controle do gasto público agora determinado produza equilíbrio fiscal.

Tudo somado, tem-se que ou o novo governo entra com programas de estímulo ou o Brasil se transformará em uma imensa Grécia.

Fonte: Folha de S. Paulo

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