O álbum de fotografias do golpe

Leia o artigo de Vladimir Safatle, professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP – Universidade de São Paulo, sobre os acontecimentos políticos atuais e o processo de impeachment

Quem ainda tinha dúvidas a respeito do Brasil estar diante de um golpe travestido de impeachment viu, nesta última semana, uma série de acontecimentos reveladores. Eles demonstram claramente como, no vazio do fim da Nova República, seus antigos atores procuram alguma sobrevida, nem que seja tomando o Palácio do Planalto de assalto.

Depois de anos operando nas sombras, o vice-presidente conspirador resolveu transformar seu partido-ônibus, ou seja, esse mesmo partido em que apertando sempre cabia mais um, em uma máquina monofônica organizada para garantir que ele será, enfim, alçado à Presidência da República nos próximos meses. Como o sr. Temer sabe que esta é a única e última oportunidade da sua vida para sair das sombras em que o destino lhe colocou, ele resolveu deixar às claras sua aliança com o sr. Cunha. Vimos então, nesta semana, movimentos inacreditáveis para um partido acostumado à inércia: seu líder da Câmara “moderado” foi deposto, suas portas foram fechadas para o ingresso de políticos mais alinhados ao governo que ele quer derrubar. O próximo passo será, ao que tudo indica, selar a ruptura em janeiro.

Então, como que por acaso, logo depois de descobrirmos que o sr. Delcídio do Amaral operou fartamente esquemas de corrupção quando participava da Petrobras no governo FHC, o PSDB, liderado pelo próprio ex-presidente em seu momento Carlos Lacerda, declarou estar unido para o golpe. Não, desculpe-me, na verdade não se trata de um golpe, mas de um impeachment motivado principalmente pela indignação contra a corrupção que assola este país na última década. De fato, ninguém melhor para liderar tal indignação do que o partido de Geraldo Alstom Alckmin, de Marconi Carlos Cachoeira Perillo, partido já comandado por pessoas do quilate de Eduardo Azeredo, recém condenado a 20 anos de prisão por idealizar o mensalão. Mensalão que, segundo o próprio Azeredo em entrevista para esta Folha em 2007, abasteceu as contas de campanha… De quem? Sim, dele mesmo, do líder da indignação moral nacional: o sr. Fernando Henrique Cardoso.

Mas, como se diz nos dias que correm, o impeachment é um instrumento que precisa do povo na rua. E lá se foi o povo manifestar no domingo para dar a consagração final à moralização nacional. Lá estava também o trânsfuga do último “Toy Story”, o Superpato da Fiesp e de seu presidente vitalício, que não deixou de anunciar a esperada adesão dos empresários paulistas, ou do que restou deles, ao golpe. Só que, vejam só vocês, a manifestação pró-golpe foi menor do que a manifestação daqueles que a ele se opõem, realizada na última quarta-feira (16). Ou seja, o argumento do “clamor das ruas” não vai muito longe, será necessário inventar outro. Nada estranho, já que julgar o governo Dilma uma das maiores catástrofes da história recente do país não implica, necessariamente, achar que tudo se ajeitará se tirarmos a personagem da linha de frente para conservar e aclamar os velhos operadores de sempre.

Para terminar, no mesmo dia em que o STF decidiu conservar o sr. Cunha à frente do processo de impeachment, a Procuradoria Geral da República pediu seu afastamento do cargo de deputado por tentar, como nos bons tempos de gângsteres, intimidar e constranger testemunhas no caso Petrobras.

É certo que este álbum de fotografias inacreditável de um golpe primário mostra muito mais do que a inanidade da oposição e a inépcia do governo. Ele mostra que as saídas para a crise não estão dadas nos marcos postos pela crise atual. Se o governo conseguir sobreviver a este golpe, será difícil imaginar o que restará depois. Este é um governo sem rumo, governo de uma “conciliação” que nunca houve, vítima de suas próprias escolhas. Ele continuará sem rumo e sitiado. Se, por sua vez, a oposição der o golpe, este será só o começo de uma das mais profundas crises institucionais e sociais que o país conhecerá. No poder, estará a mais crassa casta oligárquica à frente de um governo ilegítimo, com poderes policiais e repressivos reforçados.
O que se coloca a nós é a tarefa enorme de pensar saídas a partir do reconhecimento da verdadeira extensão dos problemas e do esgotamento das práticas de governo da nossa república.

Como costumamos dizer em psicanálise, a primeira condição para sair do problema é reconhecer seu verdadeiro tamanho.

Fonte: Folha de S. Paulo – 18.12.2015