Reindustrializar: um jogo de “ganha-ganha”

O país passa por um processo de desindustrialização precoce? Isso é “bom” ou “ruim”? Essas têm sido perguntas que permeiam os debates sobre nosso desenvolvimento, inclusive no âmbito do projeto “Cresce Brasil + Engenharia + Desenvolvimento”, conduzido pela Federação Nacional dos Engenheiros (FNE).

Uma boa oportunidade para se buscar respostas foi o seminário promovido pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) no dia 26 de agosto último, intitulado “Reindustrialização do Brasil – Chave para um projeto nacional de desenvolvimento”. No estudo que elaborou para orientar as discussões (disponível em http://migre.me/g4gFI), o Departamento de Competitividade e Tecnologia da entidade demonstra que a participação da indústria de transformação no Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro atingiu patamares que só seriam compatíveis com economias muito mais maduras, com renda per capita no mínimo duas vezes a nossa. Os 13,3% do PIB gerados pela atividade industrial em 2012 remontam a 1955, antes da aplicação do Plano de Metas de Juscelino, contra 24,9% nos anos 1980.

Os palestrantes escalados para o evento convergiram quanto a esse diagnóstico. Já com relação à etiologia e à terapêutica, o quadro foi bem diverso e, sinteticamente, pode ser descrito como o confronto entre duas “escolas” de pensamento.

Há, por certo, elementos comuns às duas linhas de análise, identificados como os principais gargalos: taxa de câmbio sobrevalorizada; juros altos; deficiências de infraestrutura e logística; estrutura tributária complexa; baixa capacitação da força de trabalho; baixa taxa de investimento; aplicação insuficiente de recursos em inovação, pesquisa e desenvolvimento.

No entanto, outros tópicos demonstraram claramente enfoques muito distintos. Correndo o risco da simplificação excessiva, poderíamos dizer que parte dos expositores via só no Estado e nos trabalhadores os elementos disfuncionais do processo. Daí sua ênfase na redução da carga tributária e da regulação estatal e sua preocupação com o cenário próximo ao pleno emprego, que caracteriza nossa conjuntura econômica.

Ainda que, evidentemente, não o explicitassem formalmente, impostos menores, menos gastos públicos, salários mais baixos, maior desemprego e redução de barreiras tarifárias seria seu “cenário dos sonhos”. Recorrendo a uma imagem da literatura, era como se vissem “o inferno nos outros”, no ambiente extraempresarial.

O caminho dos engenheiros

Uma afirmação de Ricardo Bielschowsky, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), sintetizou o enfoque oposto: o sucesso que tivemos, desde meados da década de 2000, na criação de um mercado interno de consumo de massas pujante não foi acompanhado pelo desenvolvimento de um parque industrial também “pujante e de massas”. Tanto a expansão física da estrutura produtiva foi insuficiente como a aplicação de recursos em pesquisa, desenvolvimento, ciência, tecnologia e inovação ficou muito aquém do necessário. A consequência direta foi o “vazamento” da demanda crescente para o exterior, via importação de insumos e produtos, desestimulando o investimento industrial, em um círculo vicioso.

Quanto à redução do gasto público, como parte da estratégia de reindustrialização, chamou atenção uma observação de Mansueto de Almeida, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea): quais os gastos que devem ser cortados? De custeio, com destinação de menos verbas para educação, saúde, segurança e transportes públicos? De previdência, com redução de aposentadorias e outros benefícios? Ou nas despesas financeiras, pagando menos juros?

O conhecimento acumulado pelo “Cresce Brasil” com certeza identifica-se com a segunda abordagem. Somente uma perspectiva de “ganha-ganha” faz sentido em um verdadeiro projeto de desenvolvimento nacional, em todas as suas esferas. Não será penalizando as maiorias que se construirão as necessárias convergências de interesses para uma dinâmica virtuosa. Reindustrializar o Brasil com ganhos simultâneos para todos implica centrar esforços em mais produtividade e maior escala, adensar cadeias produtivas, transformar produtos primários em bens acabados, obter mais resultados de cada minuto trabalhado ou de cada real aplicado.

Ao invés de só embarcar “pedra e grão”, exportar aços e alimentos processados. Para além do álcool, plásticos “verdes”. Bons empregos e bons salários pagos a trabalhadores industriais com boa formação escolar e técnica, que lhes permitam comprar cada vez mais de uma indústria nacional inovadora e competitiva.

Ressalta uma conclusão: mais engenharia é peça fundamental no processo. A FNE pode ajudar muito a Fiesp na escolha do bom caminho para o objetivo comum, de um Brasil reindustrializado, desenvolvido e justo.

* Por Artur Araújo, consultor do projeto “Cresce Brasil+Engenharia +Desenvolvimento”. Texto publicado originalmente no Jornal do Engenheiro, do SEESP, Edição 438.